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Química entre quatro paredes

Há dias em que o apartamento minúsculo no Arpoador parece o centro do universo.

As paredes, testemunhas mudas, guardam os segredos de corpos que se encontram,

cafés que se derramam na pressa do desejo,

e silêncios que dizem mais do que todas as palavras de Vinícius.

Ali dentro, o tempo tem outra densidade — tempo de mel e fogo, em que até o tic-tac do velho relógio parece seguir o compasso de Águas de Março.


Mas o Rio não dorme.

Lá fora, o mar respira.

As palmeiras balançam filosofias ao vento,

e os morros assistem, impassíveis,

a essa pequena humanidade que insiste em acreditar

que o amor cabe em quatro paredes.

O Tao sorri:

tudo flui.

A onda que hoje beija a areia será, amanhã, espuma.

Memória.

Saudade.


Nietzsche, com seu olhar cortante,

diria que ali — naquele cubículo de concreto com vista para um céu sem fim —

os amantes criam seus próprios mitos.

E que a beleza está justamente nisso:

na coragem de viver um eterno agora diante do abismo.

Kierkegaard suspiraria:

tantas almas tentando fixar o efêmero,

como quem quer prender o pôr do sol num copo vazio.

E quando a porta se abre?

Quando o cheiro do mar invade o apartamento

e a brisa dissolve os últimos vestígios do corpo que ali dormiu?

Espinosa nos lembra:

“Não rir, não lamentar, mas compreender.”

O vazio lá fora não é inimigo —

é o mesmo mar que trouxe e levou tantos navios,

tantos amores,

tantas canções.

 

O estoico diria que há uma geometria divina nisso tudo:

as mesmas estrelas que brilham sobre os amantes do Leblon

iluminam também os pescadores da Praia Vermelha.

Tom Jobim sabia.

Por isso escreveu:

“Tristeza não tem fim, felicidade sim.”

A química entre quatro paredes é um milagre cotidiano —

mas a vida, ah, a vida…

é maior que qualquer esquadria.

Ela pulsa também nos botequins onde se discute futebol e filosofia,

nas calçadas onde crianças jogam bola,

nos bondes de Santa Teresa,

que sobem devagar — como quem não quer chegar.


Talvez a sabedoria esteja nisso:

viver a intensidade do dentro sem medo do fora.

Aceitar, como dizia o velho Tao, que

“a canção que se pode cantar não é a canção eterna.”

E seguir.

Entre paredes e horizontes.

Entre encontros e partidas.

Entre o agora e o sempre.

Sabendo que o Rio —

esse eterno professor de desapego —

sempre terá uma nova onda,

um novo sol,

um novo samba

para nos lembrar:

a vida é breve, mas é larga.

Larga como a Baía de Guanabara.

 

                                         Idalo Spatz

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